Allan Weber, Arorá, Ana Clara Tito, Ana Cláudia Almeida, Carla Santana, Laís Amaral, Melissa de Oliveira, Tainan Cabral, Thiago Rocha Pitta, Zé Tepedino
VOCÊS VÃO TER QUE ME ENGOLIR
curadoria Leandro Augusto
10 Junho — 08 Agosto 2026
Ana Cláudia Almeida
Abraço, 2024
pastel oleoso e médium acrílico sobre tecido de algodão
205 x 135 cm
Tainan Cabral
Broto, 2026
plásticos, tampas, pregos, tinta acrílica, spray, pelos de vassoura, grama sintética sobre tela de poliéster/PVC
113 x 152 cm
Laís Amaral
Sem título I (série Aos mangues dessa cidade), 2026
acrílica e pastel oleoso sobre linho
50 x 40 cm
Leandro Augusto
A Copa América de 1997 traz à tona a desconfiança em torno da seleção brasileira, uma seleção estrelada
que contava com nomes como Romário e Ronaldo e ainda assim sofria com duras críticas e o centro
principal dessas críticas era principalmente Zagallo, treinador daquele time e nome lendário da seleção. O
“Velho Lobo”, como era carinhosamente conhecido, foi parte ativa da construção do imaginário vitorioso do
Brasil, foi treinador daquela que, para muitos, foi a melhor seleção de todos os tempos, a icônica seleção de
70 campeã no México, que brilhou sobre o seu comando. Foi também um jogador de sucesso tendo em seu
currículo duas Copas do Mundo, mas é como treinador e coordenador técnico que ele ganha destaque.
Zagallo sempre teve um temperamento difícil à beira e fora de campo, por diversas vezes bateu de frente
com a impressa e com jogadores, um exemplo clássico desse temperamento difícil, foi seu desafeto com
Romário, tendo tirado o baixinho da lista da copa de 1998, onde gerou uma revolta enorme não só do
jogador, mas também da grande mídia que tinha em Romário a grande esperança de gols. Zagallo contra
tudo e contra todos o tira da Copa. Apenas um exemplo desse personagem tão importante para nossa
história futebolística.
Em 1997 no contexto de uma Copa América jogada na Bolívia, com jogos sobre forte influência da altitude
local, um adversário invisível, mas muito prejudicial. Futebol jogado na altitude é quase uma tortura para o
corpo, a respiração é prejudicada e o jogo fica bem mais rápido, o esforço físico é levado ao extremo e o
mental fica ainda mais abalado e nesse contexto de dificuldade, a seleção brasileira foi vencendo adversário
por adversário, até chegar na final contra as anfitriãs do torneio e esse jogo é o ponto chave dessa exposição.
A seleção chegava naquela final com 5 vitórias e 12 gols marcados, uma campanha vista sob os olhares
atuais, seria considerada irretocável, mas naquela época não foi vista dessa maneira. Os jornais noticiavam
como Zagallo não conseguia extrair um bom futebol daquela seleção cheia de craques, assim como tinha
feito em 1970, onde conseguiu organizar um time com vários camisas 10 e nessa Copa América, para a
imprensa, não estava tendo o mesmo resultado brilhante, mesmo com todas as adversidades do local em
que o torneio acontecia, os adversários e mesmo tendo ganho todos os jogos disputados e feito mais gols
que qualquer outra seleção, as críticas sempre giravam em torno daquela campanha que, para eles, até
momentos antes da final, era pífia
Na final disputada no estádio com maior altitude da competição, contra a dona da casa e um estádio lotado,
a seleção tem um desempenho muito bom novamente e ganha o jogo por 3×1. E nesse momento, poucos
instantes depois do apito final, sem tempo para descanso, sem tempo para comemorar, sem tempo até para
assimilar tudo que ocorreu, não só naquela final, mas em toda trajetória daquela competição, o velho lobo é
interpelado com toda a malícia jornalística, que sabia que poderia, ali naquele momento de emoção do
treinador, extrair uma boa declaração e assim ocorreu. Da sagacidade de um campeão, nasceu o desabafo
da vitória, poucas palavras, mas um significado enorme que atravessa gerações. O Velho Lobo é perguntado
se ele pode falar após aquela vitória e respondendo, não só para o repórter, mas também para uma multidão
5 Bocas + Cavalo
que não estava ali presente fisicamente, mas que estava vendo a coroação de uma jornada vencedora,
Zagallo diz: “Posso falar, ganhamos, com dificuldades, não tínhamos a mesma velocidade… mas tínhamos o
coração, é para você, vocês sabem quem são e não preciso dizer mais nada. VOCÊS VÃO TER QUE ME
ENGOLIR.”
“Vocês vão ter que me engolir” é uma frase que pode soar como violenta, uma imposição de algo que não
queria que fosse, e é justamente nessa imposição que nasce a ideia da coletiva, quando as portas não se
abrem da maneira tradicional, é preciso se impor e gritar para aqueles que têm as chaves entenderem que
ignorar não é mais o caminho, é o ponto final de quando o argumento e as negociações não se resolvem
mais, e apenas a imposição é a saída.
O periférico convive com o cansaço físico, assim como é jogar na altitude boliviana, o ar na maioria das vezes
dentro do transporte público é rarefeito, correr o dia a dia de uma cidade grande é exaustivo tal qual aqueles
90 minutos da final em La Paz, o diferente que no final não vem a glória de mais um troféu, a vitória é
silenciosa e quase sempre isolada, e sem dúvida muito menos glamurosa, ela se dá apenas por conseguir
chegar em casa e descansar para no dia seguinte jogar mais uma final de 90 minutos em La Paz.
No caso do Zagallo a glória e a afirmação de ser um vitorioso veio após o apito final, mas para a maioria dos
brasileiros essa glória parece que nunca chega, esse cansaço é pior que o físico. É o cansaço de ser colocado
constantemente em dúvida, de ter que provar todos os dias aquilo que já foi feito, de vencer e ainda assim
não ser aceito e esse cansaço não se cura com 8 horas de sono, ele precisa ser interrompido.
As críticas dentro do contexto da arte contemporânea são automáticas para quem vem de um contexto de
vulnerabilidade social e tenta ascender dentro desse mercado e a necessidade constante de validação torna
tudo mais cruel. Essa exposição é a clara manifestação de uma nova vertente que esperamos que cresça, a
aceitação nossa não vai ser mais um pedido, ela será uma imposição.
A galeria 5 Bocas ocupa bem esse papel dentro de uma lógica galerista, ela não pediu autorização das
grandes instituições para existir, ela existe e se impõe dentro do mercado, quer eles queiram ou não, ela é. E
sendo, é gigante. Existe uma diferença brutal entre: querer que gostem e não permitir mais que neguem a
participação.
As críticas continuam e sempre continuarão, mas em algum momento elas mudam de função e deixam de
ser algo a se responder e passam apenas ser parte do ambiente que é vivido. Assim como a altitude, como o
ar rarefeito, algo que não vai desaparecer, mas o corpo aprende a enfrentar.
A exposição, apesar de ter um tom futebolístico, pouco futebol ela é. O futebol é apenas um pretexto, pretexto
esse que já foi usado para diversos fins na história do nossos país, também foi usado para juntar essa seleção
de artistas em uma única mostra. Lembra aquela seleção de 70? Zagallo teve que ter habilidade para
conseguir unir tantos camisas 10 em um único time e o mesmo foi pensado aqui, unir Ana Clara Tito, Arorá,
Ana Cláudia Almeida, Allan Weber, Carla Santana, Laís Amaral, Melissa Oliveira, Tainan Cabral, Thiago
Rocha Pitta e Zé Tepedino em uma única mostra, é um privilégio para poucos e tivemos o prazer de
conseguir unir essas práticas, técnicas e histórias dentro dessa coletiva e deu certo, igual àquela seleção que
tanto nos orgulhamos.













