Alexandre Nitzsche Cysne
Falsas expectativas
texto Michelle Farias Sommer
Rio de Janeiro | 03 Julho — 13 Setembro 2025
Elmo, 2024
(Parte da série Moscas volantes: a colheita)
pedra, madeira, metal e tecido (materiais
encontrados)
118 × 35 × 35 cm
Longa caminhada, 2025
metal, papel, plástico, couro, papelão e madeira
(materiais encontrados)
260 × 81 × 7 cm
Falsas expectativas
[expectativas, falsas] | É na situação de quem espera, em determinado momento, a ocorrência/aparição
de algo ou alguém que a expectativa reside. Em ditos socialmente compartilhados, escuta-se: “expectativa
x realidade”, uma em oposição à outra, ambas em desacordo. Seria essa uma falsa dicotomia? As
expectativas, plurais, em tipos e gradações, são muitas: altas, baixas, positivas, negativas, verdadeiras, falsas;
ora, também, são indicativas de um certo estado mental. Expectativas, de fato, são mobilizadoras de
desejos. Entre convergências e divergências, estão as falsas expectativas – aparentes, inexatas, inverídicas,
ficcionais – que produzem efeitos e/ou promessas de ilusão. [falsas expectativas: pulsões fabulatórias
de mundos].
[falsas expectativas, exposição] | Composição expositiva de objetos urbanos e domésticos
encontrados; frutos de coletas realizadas em deslocamentos – das matérias, do artista, em territórios. Objets
trouvés (objetos encontrados) assemblados, reunidos, juntados, combinados, recombinados, acoplados,
montados, disfarçados, camuflados. Uma ode à criação deliberada de aforismos artísticos que são
cultivados através de práticas de presença e atenção à vida cotidiana. “Exercícios contemplativos de observação
do ordinário” regados com suposições, adubados com a aceitação de incertezas abraçadas em erros. No ato
criador o artista é meio-passagem-ponte, um catalisador que, a partir de uma economia de intervenções –
às vezes, talvez, somente uma – e sob a regência da lei do mínimo, inicia um processo que é completado –
em abertura – por quem sente/percebe/nota o trabalho em si e no seu simultâneo devir além. Você
percebe? No esforço máximo de realização de ações mínimas, o artista dá de si, literalmente. Atente, nos
trabalhos, para a presença de unhas, dentes, sangue, suor. Em pauta está uma ação e/ou ações de
transmutação na matéria, produzida a partir de fissuras, falhas, lapsos, faltas e dubiedades. Ambivalências
que são sustentadas pelo estranhamento do que permanece inexpresso, embora intencionado, nas obras;
e pelo que permanece expresso, embora não intencionado. [falsas expectativas: uma cartografia de
intenções].
[mover-se] | Rio de Janeiro – Paris; Paris – Rio de Janeiro. No mover-se em outras paisagens, no estado
de estar em trânsito, onde em nós a casa mora? O que/como carregamos o que nos pertence? O que/como
descartamos o que não nos pertence (mais)? Em terras cheias de fronteiras, em céus carregados de
bandeiras, aterrar é aterrar-se: “sair da redoma para deparar-ser com o mundo”. As derivas do artista, situadas
entre pontos de partida e chegada, cultivam disciplinadamente o acaso como método e o chão como
território. Experiência-vivência de, ao invés de olhar para frente (um futurismo), perceber o chão, ao
redor (em presentidade): uma prática de artes de notar. Há, nos objetos estendidos no chão, talvez exaustos
de tanto abandono, saberes sussurrados. As coisas achadas, ditas inanimadas, são, em gestos, animadas em
ações de perturbação na estabilidade dos atributos que inferimos às coisas – camisetas escolares assinadas;
formas de sapato infantil; peões de madeira; ossos; asas de mariposas; pergaminho de pele de cordeiro;
caixote de morangos; bexigas furadas – índices de fim de festa. Exibe-se, minuciosamente, a ilegibilidade
presente nas coisas encontradas, guardadas – envelopes de cartas manchados; embrulhos rotulados e
datados (lembranças da avó); lista de compras feita de maneira improvisada em um pedaço de papelão. A
ação de coleta como colheita ausculta os escombros da cidade e celebra a vida que resiste nas coisas do
mundo. A espontaneidade do encontro (com objetos, com pessoas) emerge como uma dádiva, fruto da
investigação curiosa da vida. [falsas expectativas: vitrine-poema da colheita dos dias].
[tempo-bailarina; tempo-hieróglifo] |O espaço da cidade é um sítio arqueológico cujas rugosidades
acumulam tempos desiguais. Um tempo-bailarina está impresso na alquimia das arqueologias encontradas:
veja a superfície dos pregadores de roupa de madeira oriundos da casa da família do artista e como esses
objetos (a)pre(e)ndem o tempo que se move, em composição musical serenata; atente para o desenho da
pressão da lente da câmera guardada, por anos, na case (errada). Um corpo-hieróglifo poroso, lugar de
inscrição de grafias de conhecimento – das matérias, do artista – que contém teias de memórias: note as
unhas cortadas que guardam restos; escute o ranger aflitivo dos dentes (o bruxismo); perceba um pequeno
confessionário que guarda segredos; vibre com a forma da ausência de ar dentro das bolas de futebol
(“razão de sua geometria”, essa guardiã da memória-ar). [falsas expectativas: realismo fantástico do
ordinário, extraordinário].
[teoria da bolsa da ficção] | O artista como catador-narrador, fabulador de mundos, é uma convocação
à contação de estórias de vida que se dão a partir de gestos coletores-recolhedores. (Aqui, estórias são
“causos”, acopladas à storytelling, na mescla de fato-ficção que borra fronteiras: é – não é – um louvor às
estórias inventadas, às outras estórias, às narrativas paralelas ainda não contadas; estórias como evocação
de mundos possíveis e mundos já desaparecidos). Os objetos encontrados e assemblados contêm estórias
como bolsas espaçosas que carregam o vivido e os expõem para que, com outras/novas estórias,
continuem a viver. Narrar, junto-com Ursula de Le Guin, uma literatura bolseira avessa às narrativas do
herói e sua jornada triunfante de feitos monumentais. E, então, fabular com “uma folha uma cabaça uma
concha uma rede uma bolsa um sling uma sacola uma cesta uma garrafa um pote uma caixa um frasco”,
“neste ventre das coisas por virem a ser e nesta tumba das coisas que foram”. Performar, junto-com Donna
Haraway e “uma bolsa de sementes para terraformar com alteridades terrestres”. [falsas expectativas:
mergulho imaginativo na contingência do “e se…” outras estórias].
[Com-fabulações] |O que carregavam os bolsos de calça preta usada pelo artista durante quatro anos –
um dia sim, um dia não? Escuto: o processo. Penso: a estória. Que estórias estão contidas nos bolsos,
junto com o quê você carrega? Na sua bolsa fabulativa de vida, o quê está aderido à sola dos seus sapatos,
nos moldes da infância que sustentam, hoje, você? Como você girou os peões da infância? Atente para o
(seu) céu-chapéu de criança (na longa caminhada). Compor, junto-com (e a partir) de Alexandre Nitzche
Cysne, uma arte bolseira, que coleta, cata, guarda e, em conexão às coisas do mundo, opera um
procedimento de alargamento imaginativo que, ao perceber a terra, o chão, torna-se com ela/ele. Nas
bolsas que guardam coisas que guardam estórias povoadas de sentidos, na casa de teto-céu e chão-terra,
carregadas/os estamos, na barriga do universo. Fabulação: como modo de atenção assentado em práticas
cotidianas de contar estórias e reagir ao mundo de outras/novas maneiras; fabulação como ação de cultivo
da imaginação e do encantamento como estratégia urgente para atravessar o tempo que vivemos (para
admirar-se, sorrindo, com as cores do tapete da avó vistos pela primeira vez, a partir da manobra de buscar
o seu avesso, posicioná-lo de cabeça para baixo). Com-fabulação: uma prática de fazer mundos-com, estar
junto-com outras/outros, vivas/vivos, mortas/mortos, coisas, através do tempo, dançando com ele; uma
força inventiva que atenta para a interconexão e interdependência de todos os seres vivos e não vivos que
estão entrelaçados em uma miríade de configurações rizomáticas de lugares, territórios, tempos, matérias,
significados. Com obras-colheitas está uma exposição-semeadura. [falsas expectativas: co-criação
contínua em comunhão com o universo, um exercício de curiosidade sem fim].
Michelle Farias Sommer
(1) Citações entre aspas e em itálico: frases-extratos de conversas com o artista.
(2) Texto pensado com: rugosidades (Milton Santos); artes de notar (Anna Lowenhaupt Tsing); tempo-bailarina e tempo-hieróglifo
(Leda Maria Martins); teoria da bolsa da ficção (Ursula Le Guin); uma bolsa de sementes para terraformar com alteridades
terrestres (Donna Haraway).
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
TSING, Anna Lowenhaupt. O cogumelo no fim do mundo. Sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. Cap. 2. Artes de notar.
São Paulo: n–1 edições, 2022, p. 59-71.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2021.
LE GUIN, Ursula. Teoria da Bolsa da Ficção. São Paulo: Editora N-1, 2021.
HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthluceno. São Paulo: Editora N-1. 2023.
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Michelle Farias Sommer é professora adjunta do Departamento de Teoria e História da Arte e professora permanente do
Programa de Pós-Graduação em Artes no Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IART e PPGArtes,
UERJ)












