Currículo

Thiago Martins de Melo

São Luis, Brasil, 1981

Vive e trabalha em São Luís

Exposições Individuais Selecionadas

 

2016

BÁRBARO BARROCO, Gamma Galeria, Guadalajara, México

bárbara balaclava, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Brasil

bárbara balaclava, Mendes Wood DM, São Paulo, Brasil

 

2013

Teatro Nagô-cartesiano e o Corte Azimutal do Mundo, Mendes Wood DM, São Paulo, Brasil

 

2011

Thiago Martins de Melo, Mendes Wood DM, São Paulo, Brasil

 

2010

III Mostra do Programa de Exposições Centro Cultural São Paulo 2010, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil

 

2009

Sad Goat, Projeto Trajetórias 2009, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Brasil

 

Exposições Coletivas Selecionadas

 

2018

Simultâneos, MAC-CE, Fortaleza, Brasil

Verzuimd Braziel – Brasil Desamparado, Prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas, MAC-GO, Goiânia, Brasil

 

2017

Travessia 5: Emergência, Galpão Bela Maré, Rio de Janeiro, Brasil

A Luz Que Vela o Corpo É a Mesma Que Revela a Tela, CAIXA Cultural Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

6° Prêmio Marcantonio Vilaça, MuBE – Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, São Paulo, Brasil

Queermuseu – Cartografias da diferença na América Latina, Santander Cultural, Porto Alegre, Brasil

Festival Internacional de Cinema Experimental, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, Brasil

 

2016

Contemporary Brazilian Arts from the Rubell Family Collection, Rubell Family Collection, Miami, USA

Orixás, Casa França – Brasil, Rio de Janeiro, Brasil

Adornos do Brasil Indígena: resistências contemporâneas, Sesc-Pinheiros, São Paulo, Brasil

Os muitos e o um: arte contemporânea brasileira, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

A Cor do Brasil, MAR – Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, Brasil

Soft Power. Arte Brasil, Kunsthal Kade, Amersfoort, Holanda

Dakar Biennale, Dakar, Senegal

Histórias da Infância, MASP, Museu de Arte de São Paulo, São Paulo, Brasil

 

2015

The World is Made of Stories, Astrup Fearnley Museet, Oslo, Noruega

Imagine Brazil, DHC/Art Foundation For Contemporary Art, Montreal, Canadá

10º Bienal do Mercosul – Mensagem de Uma Nova América, Porto Alegre, Brasil

1ª Bienal Internacional de Assunção – Grito de Libertad, Assunção, Paraguai

O Ponto de Ebulição, PSM-Gallery, Berlim, Alemanha

5ª Prêmio Marcantonio Vilaça, Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Brasil

Imagine Brazil, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

Como (…) coisas que não existem, 31 Bienal de São Paulo – Itinerância SESC Campinas, São Paulo, Brasil

The Poetry In Between: South-South, Goodman Gallery, Cidade do Cabo, África do Sul

Here There (Huna Hunak), QM Gallery Al Riwaq, Doha, Qatar

 

2014

Como (…) coisas que não existem, 31 Bienal de São Paulo, São Paulo, Brasil

Cães Sem Plumas, Museu de Arte Moderno Aloisio Magalhães, Recife, Brasil

Histórias Mestiças, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

Pororoca, MAR – Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, Brasil

Prêmio Pipa 2014, – MAM Rio de Janeiro, Brasil

Singularidades/Anotações – Rumos Artes Visuais 1998-2013, Itaú Cultural, São Paulo, Brasil

3a Bienal da Bahia – É tudo Nordeste?,Salvador, Bahia, Brasil

Imagine Brazil, Musée D’art Contemporain de Lyon, Lyon, França

 

2013

Imagine Brazil, Astrup Fearnley Museet, Oslo, Noruega

Chambres à Part, Edition VIII, La Réserve Paris, Paris, França

Entre-temps… Brusquement, et ensuite, 12e Biennale de Lyon, Lyon, França

Convite à Viagem – Rumos Artes Visuais, Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil

Poema aos homens do nosso tempo – Hilda Hilst em diálogo, Ateliê Aberto, Campinas, São Paulo, Brasil

Cães Sem Plumas, Galeria Nara Roesler, São Paulo, Brasil

 

2012

To be with art is all we ask, Astrup Fearnley Museet, Oslo, Noruega

Alphabet of the Magi, Mendes Wood DM @ Edificio Copan de Oscar Niemeyer, São Paulo, Brasil

Dos Percursos e das Poesias, Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Fortaleza, Brasil

Projeto Metrô de Superfície: mostra I, Paço das Artes, São Paulo, Brasil

Amazônia: ciclos de modernidade, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil

Espelho Refletido: o surrealismo e a arte contemporânea brasileira, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, Brasil

Zona Tórrida: certa pintura do nordeste, Santander Cultural Recife, Recife, Brasil

Novas Aquisições 2010–2012, Coleção Gilberto Chateaubriand MAM, MAM RJ, Rio de Janeiro, Brasil

Convite à Viagem, Rumos Artes Visuais, Itaú Cultural, São Paulo, Brasil

 

2011

Caos e Efeito, Itaú Cultural, São Paulo, Brasil

Os Primeiros 10 Anos, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

 

2010

Amazônia, a arte, Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil

Amazônia, a arte, Museu Vale, Vila Velha, Brasil

 

2009

Arte Pará 2009, Fundação Rômulo Maiorana, Belem, Brasil

Trajetórias 2009, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Brasil

 

2008

Arte Pará 2008, Fundação Rômulo Maiorana, Belém, Brasil

2005

Redemergências, Projéteis de Arte Contemporânea e Rede Nacional de Artes Visuais, Palácio Gustavo Capanema, Funarte, Rio de Janeiro, Brasil

 

2004

Projeto Prima Obra 2003–2004, Galeria Fayga Ostrower, Funarte, Brasília, Brasil

 

2002

III Salão de Arte Cidade de Porto Alegre, 2º andar da Usina do Gasômetro, Porto Alegre, Brasil

 

2001

Brasil+500 Maranhão – Mostra do Redescobrimento, Módulo: Carta de Pero Vaz de Caminha – artistas maranhenses, Convento das Mercês, Sao Luis, Brasil

 

2000

Projeto Prima Obra 2000, Galeria Funarte, Brasília, Brasil

IX Salão Paulista de Arte Contemporânea, Salão Concourse, Estação Júlio Prestes, São Paulo, Brasil

 

Educação

Mestrado em Teoria e Pesquisa do Comportamento, UFPA, Belém, Brasil

Formado em Psicologia, UNICEUMA, São Luis, Brasil

 

Prêmios

 

2011

Prêmio Funarte de Arte Contemporânea, 2011/NE, Brasil

2009

Prêmio-aquisição, Arte Pará 2009, Fundação Rômulo Maiorana, Belém, Brasil

2008

Grande Prêmio, Arte Pará 2008, Fundação Rômulo Maiorana, Belém, Brasil

 

Coleções

 

Rubell Family Collection, Contemporary Arts Foundation

MASP – Museu de Arte de São Paulo

MAR -Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro

Thyssen-Bornemisza Art Contemporary

Museu de Arte Contemporânea do Ceará

Astrup Fearnley Museum of Modern Art

Coleção Gilberto Chateaubriand, MAM

ICA – Miami, institute of Contemporary Art, Miami

Textos

Thiago Martins de Melo

barbara balaclava

Viviane Vazzi Pedro

A destruição rói fundo e assim purifica a própria autoridade suprema. (…) A revolta – a face descomposta pelo êxtase amoroso –, a Deus arranca a máscara de ingenuidade e assim a opressão desaba no estrépito do tempo.

As séries dos trabalhos de Thiago Martins de Melo foram se fazendo como um raciocínio amalgamado, sem começo ou fim demarcados. Observando as produções dele ao longo do tempo, diversos aspectos foram se decantando e culminam, agora, na série barbara balaclava.

A pintura de Martins de Melo nunca foi, de fato, apenas bidimensional. Assim como a leitura de suas obras não pode ser dita como exatamente retiniana. Já nos seus primeiros trabalhos, podia-se sentir, como uma das suas principais características, o exercício da fronteira entre as dimensões bi e tridimensionais.

Cada vez mais material, Martins de Melo aprofundou essa fisicalidade e sua capacidade de revelar sentidos nas estruturas formais pictóricas e na materialidade das suas camadas, valendo-se de uma diversidade de técnicas pictóricas de textura para transcender, como quem procura dar vida à pintura.

Os vários planos e relevos de massa pictórica são característicos dessa estrutura formal, e, quando aplicados à sua composição, contribuem para revelar signos, narrativas e radicalismo nas imagens. As narrativas são estabelecidas em vários graus e camadas simbólicas, dispostas com diferentes texturas e planos. A pintura salta ao olho com sua fisicalidade, quando vemos técnicas diferentes aplicadas no trabalho é como se nele enxergássemos lâminas. É assim que as texturas colocadas na tela, juntamente com o conteúdo narrativo, simbólico e arquetípico, criam planos de leitura inconscientes.

Nessas camadas formais pictóricas, e em todo o processo compositivo, se revelam temáticas ou assuntos que têm ressonância emocional para Thiago, sendo objeto de seu afeto, interesse e inquietação.

Ao compor, Martins de Melo parte de um esboço, no qual tenta, minimamente, pensar os elementos e a localização espacial deles. Entretanto, é no fazer pictórico que a configuração se dá, justamente entre estes elementos – que deixa, propositalmente, abertos – para interação com a tela e expressão de suas reflexões diante dos signos. É nessa vivência que ocorrem para Thiago as conexões simbólicas, as pesquisas de referências e os acréscimos. A mim, não é possível replicar um método e um projeto previamente elaborado. Isto seria como matar ´o processo´ e não faria sentido seguir adiante. O processo é o constante exercício pictórico, formal e semântico, que se faz entre a linha tênue que divide a minha própria vontade e a autodeterminação do signo… isso mesmo… é como se fosse uma entidade reguladora de sentido. É o fazer que me mostra como será, afirma Thiago.

barbara balaclava é o resultado sublime dessas rupturas formais com a bidimensionalidade e mostram uma pintura expandida para o tridimensional, para a imagem em movimento e para som. Estas formas de expressão, agressivamente barrocas, chegam como aliadas para os altares, ebós ou oferendas – imagéticos e energéticos – realizados por Martins de Melo.

Na série, Martins de Melo reforça o que o curador e crítico, Gunnar Kvaran, já havia identificado como a sua capacidade de reinvenção da estrutura narrativa no universo da pintura e, que, me parece, além disso, ressignificar, também no conteúdo, o próprio uso e alcance conceitual dos tradicionais termos antropofagia e canibalismo.

Desde as primeiras séries, O Ciclo do Cão e Tricéfalo em Catarse, Thiago expressava seu apetite canibalista pelas instituições e valores, realizando transgressões por meio de uma devoração que os mastiga e recria como crítica – política, social e psicológica – antes de serem digeridos ou excretados.

Nessa fase em que se autorretratava, Thiago transferia experiências literais para o seu corpo, colocava-se no lugar outros, recriava metáforas espirituais e arquetípicas, percorrendo caminhos e paisagens tão sublimes quanto inóspitos: O fato de eu me retratar junto com indígenas ou mestiços me faz sentir que eu estou pintando, ao mesmo tempo, meus amigos e a mim mesmo. O Estado, para todos nós, não é condizente com os nossos valores, explica Martins de Melo.

Já em seus primeiros trabalhos, o desejo, a libido carnal e o encontro com a potência feminina parecem substituir o sentido da paixão de Cristo. A heresia que isso pode representar socialmente alimenta o intuito de Thiago de questionar, triturar para despejar, como excrementos, o poder político autoritário, a crença monoteísta, o machismo de um pai inquisidor e castrador, cujas leis ameaçam a fusão carnal entre anima e animus.

O sexo e o êxtase amoroso, carnais, conduzem à conjunção sagrada, ao rito transformador e transcendental. Inicialmente, esses sentimentos assumiam o embate contra as rígidas estruturas familiares, heranças, tradições morais, tidas como civilizadas, religiões eurocêntricas, fundamentos do Estado e códigos de comportamentos padronizados. Aos poucos, este embate foi se espalhando para outras leituras do mundo.

Ao devorar, em catarse, essas estruturas, Thiago nos torna expectadores das paixões e, também, de suas narrativas justiceiras contra as atrocidades, formas de escravidão, ambição desmedida e domínios sob a natureza, opressão e morte cometidas em nome do que lhe parecem fundamentos cruéis e rançosos. Sob outro aspecto, de natureza espiritual, a antropofagia ou canibalismo de Thiago parecem buscar uma quintessência de Deus, por meio da devoração do corpo e da entidade moral da deidade monoteísta. Torna-se o senhor de sua própria ética redentora da diversidade de expressões morais e psicológicas.

A fome de Martins de Melo se estendeu para o além das instituições e valores que castravam o seu próprio mundo. Olhou o universo a partir da complexa janela do seu ateliê, em São Luís, na Amazônia Legal maranhense. Dali, ele começou a enxergar questões que parecem ser locais, mas são reflexos do trator homogeneizante da globalização. Nas lutas contra esse trator, as dimensões global e local se interconectam, reforçam significados e características locais.

O preconceito aos saberes, crenças e cosmogonias leva Thiago a perguntar, em um dos primeiros trabalhos da série O Teatro nagô cartesiano: Qual o lugar da alma no corpo? Estaria a alma situada na glândula pineal, como defende o racionalismo cartesiano? Ou estaria localizada na região da nuca, como entende a cosmogonia nagô? Como se pode compreender a psiquê e a alma? Qual seria a geografia física da alma de diferentes povos? E como isso se traduz para as visões de mundo?

Essas questões levam Thiago a buscar conexões arquetípicas por trás de tudo e, por meio dos signos híbridos e expressões sincréticas, aglutina sistemas mais amplos de cosmogonias africanas, ameríndias, caribenhas, hindus, anglo-americanas, latinas… Entretanto, isso o coloca de frente a outro problema: como representar, por exemplo, a imagem atual do índio, do quilombola, do caboclo, do não branco ou do branco pobre, ante a idealização em que são retratados desde o século XVII?

Com isso, Martins de Melo acessa, intuitivamente, questões que desafiam a antropologia e o pensamento social do Brasil e do mundo. A angústia da luta identitária de povos que reivindicam o reconhecimento, os tantos significados do território, desterritorialização e reterritorialização, os deslizamentos que, por vezes, unem ou negam a aglutinação cultural, sincretismo e mestiçagem… Entretanto, é da arte, do desejo e do sentir de Thiago que emergem suas verdades pessoais. Muito além de qualquer teoria ou politização, ele se pauta pelo afeto e pelo respeito à construção da imagem.

A obra O Martírio, exibida na última Bienal de São Paulo, é exemplo clássico dessa lógica. Nela, os caboclos sagrados da umbanda e tambor de mina, que amparam as lutas dos heróis anônimos, como os caboclos Sete Flechas e Ubirajara, são retratados tal como conhecidos nos seus altares, com o cocar do índio apache americano. Thiago explica: Eu vou, sim, colocar o cocar de índio norte-americano no Ubirajara e em 7 Flechas. Para representá-los como os amigos caboclos preciso me utilizar da iconografia de origem colonialista que marca sua representação, porque é com esta que me familiarizei, é esta que é conhecida como signo de poder pela umbanda e mina e que me dá o desejo de pintar. Além disso, eles (caboclos) querem ser homenageados e representados da maneira em que são. É isso que conduz ao afeto.

Os personagens retratados pelo artista – que, muitas vezes têm as faces identificadas como maranhenses ou amazônicas, irreconhecíveis pelo resto do Brasil e do mundo – representam, na verdade, pessoas universais, envolvidas em situações de resistências globais. Os combatentes são pessoas e grupos que reivindicam o reconhecimento do direito à identidade e da diferença dos seus modos de vida, a partir da experiência interrogativa, da necessidade de defesa do território, do enfrentamento à discriminação e negação político-jurídica. Reivindicam a significação da diferença cultural e, por isso, representam um pensamento pós-colonial. Politicamente, denunciam os abusos do exercício do poder pelas agências governamentais e, no plano econômico, questionam as contradições do modelo desenvolvimentista mundial e as formas de integração aos circuitos do capital, em nível nacional e internacional.

Os retratados representam os rostos daqueles que gritam em todo o mundo exercitando uma disjunção da racionalidade moderna e da universalidade do pensamento ocidental; sugerem respostas alternativas, exigem autonomia e projetos de futuro próprios.

O poder de despertar afetos é exercido por meio das alegorias barrocas criadas por Thiago e o sentido das suas narrativas é revelado por um inconsciente ótico e pulsional. O entrelaçamento entre as representações imagéticas do corpo do trabalho e seus títulos nos fornece valiosas pistas para a leitura. Entretanto, na maior parte das vezes, não é possível uma compreensão completa, imediata ou apressada das obras. Os seus elementos complexos e significantes parecem chegar depois, operam no plano da memória, do inconsciente, do imaginário, dos insights, de revelações, esquecimentos ou preconceitos que advém de uma memória reprimida de histórias que são nossas, da humanidade.

Na atual exposição da série barbara balaclava, as obras de Thiago se tornam ainda mais trágicas: confrontam utopia e distopia em narrativas que mostram o momento do segundo antes do golpe. Thiago veste a máscara do anonimato do confronto e deixa de se autorretratar em suas obras. Sobre isso, justifica: passei a sentir que eu, como branco, classe média, descendente de burgueses, não represento mais, como imagem, as minhas próprias utopias. Daí a necessidade de sair de cena (…) busco a minha visualidade interior em outras peles. Quando crio um guerreiro tupinambá ou quilombola, me passa a vontade de resistência, me dá sentido à vida, de força ante a distopia.

As obras tratam das lutas não legitimadas, de pessoas e grupos vistos como bárbaros, não civilizados, não cidadãos. Retratam locais e psicogeografias de batalhas que ocorrem nas margens espaciais, em estados de exceção permanentes e entre-fronteiras. Nesse contexto, o mangue, como local psicogeográfico em algumas obras, é o lodo simbólico, emblemático desses entrecruzamentos de água doce e salobra, de vida e morte, água e terra, local indesejado pela urbanidade civilizada e que, historicamente, foi e é local de reinvenção da liberdade, da resistência dos taxados como bárbaros.

A balaclava é a invisibilidade, o desconforto ou a agressão causados pela máscara de batalha, que aniquila a identidade, a personificação e individuação, guarda o anonimato de opressores e oprimidos e, por isso, possui duplo sentido. A camiseta que encobre o rosto, a máscara de ferro de Anastácia, a máscara da tropa de choque, da polícia… e as tantas máscaras usadas socialmente, tanto por aqueles que temem as instituições quanto por aqueles que as representam… Situações dicotômicas de auto anulação em nome de resistências ou embates violentos, que guardam por trás de si interesses de grupos, coletivos, movimentos, organizações ou do próprio Estado. O desejo, a libido ou as formas de expressão sexuais retornam fortemente às obras, com poder antropofágico, ritualístico e transmutador. Yin yang, animus e anima, androginia… poéticas da conjunção que tem como horizonte a liberdade.

O eixo da exposição é o filme barbara balaclava do qual decorrem outras obras, que sintetizam e reforçam seus signos e significações. A exceção é uma obra que Thiago dedica a Tirésias, Exu Duas Cabeças e São Sebastião, e que aborda questões de identidade de gênero, como a transexualidade.

Em barbara balaclava, Thiago explora o tempo de forma horizontal, quase quântica. A lógica deste tempo está mais ligada a uma lei de causa e efeito que à cronologia de eventos. No roteiro do filme, por exemplo, a heroína parece viver suas três vidas, de forma simultânea: uma suposta vida passada, como homem, escravo negro, arremessado ao mar de um navio negreiro; como mulher, recém-morta por efeitos da grilagem ou da desapropriação de terra e, ainda, como entidade encantada, que funde as existências anteriores num corpo imaterial andrógeno, coexistindo no agora, carregando consigo as cicatrizes, histórias e poderes destas existências.

No filme, há, também, uma micronarrativa para a heroína realizada por intermédio do jogo do Tarô de Marselha, que trata dos aspectos da jornada arquetípica por ela vivenciada, como a antever a profundidade psicológica de suas experiências.

Em uma das pinturas, Thiago narra a reencarnação de um bandeirante paulista no ventre de uma índia amazônica, numa negação da morte energética da história e de um fim para as jornadas pessoais espirituais. A lei do retorno não rompe com o passado, mas tem o poder de o presentificar.

Como previsto nos princípios de magia, os acontecimentos das narrativas e seus signos ecoam nas diversas dimensões, tempos e espaços, surtindo efeitos energéticos, manifestando-se com sincronicidades e propagações nem sempre sequenciadas.

Tal como descrito e vivenciado por Jung, em seu Livro Vermelho, ao entrar em contato com o signo, Thiago parece entrar em contato com o mundo, talvez em uma experiência artístico-social visionária de nossos tempos.

Pergunto-me, por exemplo: ao pintar, com meses de antecedência, as ocupações com barricadas às marquises do Congresso Nacional Brasileiro, a invasão da lama preta aos povoados, tratando, em anos anteriores, da ferida do ferro sujo da mineração, estaria o artista conectado a uma espécie de Neuromancer? Adentraria, via signo, um cyberespaço quase físico, espécie de matriz programada na qual se vislumbra as causas e efeitos dos acontecimentos? Ou teria acesso às imagens presentes no mundo das ideias, de Platão, no qual os acontecimentos existentes idealmente se replicariam, com as distorções da realidade, em nosso universo físico? Anteciparia, a frente de nossos tempos, as batalhas que os aguardam? Questiono, ainda: será que tem mesmo sentido a crença de Thiago (alquímica) de que seu ebó pictórico traria para baixo (mundo físico) o que já está acima (mundo espiritual) e vice-versa?

A meu ver, Thiago, acima de tudo, tem consciência de que o signo tem poder e faz dele sua pajelança artística para curar, vingar, despertar e libertar personagens e público, nas diversas dimensões e tempos do universo, os regendo por sua ética pessoal.

Teatro Nagô-cartesiano e o Corte Azimutal do MundoPedro Mendes e Viviane VazziDentre os artistas plásticos brasileiros que sistematicamente desenvolvem sua pesquisa no campo da pintura, Thiago Martins de Melo é dos que com mais notoriedade se aplica em discussões polissêmicas e densamente narrativas.
Martins de Melo mergulha-se e distancia-se de vez em vez, como se sua vida fosse um instrumento de algo maior. Thiago não deixa um minuto passar, não há um segundo em vão, não há paragem, não há o não trabalho, o seu tempo é outro – ditado pela pintura. A plasticidade de sua obra é algo fundamental. O artista compreende que seus dípticos, trípticos e polípticos em enorme dimensão vingam-se por independência de superfície da imposta dicotomia representada pela mente versus corpo, que não por ingenuidade em sua obra, assume que esta separação simplesmente deixa de existir.A prática de Martins de Melo parece estar situada em um tempo revisionário: recorre à memória cultural, por um meio dotado de historicidade como a pintura e reinventa, na contemporaneidade, personagens históricas, populações culturalmente diversas e entidades espirituais brasileiras, camponesas, míticas, indígenas e negras. Tais personagens são chamadas a retornar ao campo de batalha nas telas do artista, comunicando sua luta ao mundo da arte (e as elites intelectuais?).Inspirados em Walter Benjamin poderíamos falar que o artista realiza osalto do tigre em direção ao passado, invocando, em favor de suas personagens, a imagem(…) que se oferece inesperadamente ao sujeito histórico num momento de perigo (Walter Benjamin, 1994, p. 224). Armadas por essa memória e suas assombrações, as personagens são criadas na contemporaneidade para reivindicar suas histórias e formas de expressão apagadas, construindo, no presente, um cenário futuro a partir da utopia e da visão onírica, idealista do próprio pintor.

Sua cosmologia parece tudo englobar. E sua pintura não apenas retrata: ela aconselha suas personagens para a continuação de suas histórias. O artista retrata o rosto de inimigos, mescla a moral com solidariedade social, incita vingança, realiza evocações a entidades e oferendas espirituais, narra tragédias e embates étnicos, em plena e caótica interação, chamando cada um que contempla suas telas a participar de um ritual – emotivo e racional – segundo o seu ângulo e mundo particulares. Sabe-se que o artista antecipa o seu tempo e as formas de linguagem de uma época. E nesse contexto temporal, marcado pela crise epistemológica da ciência, pela reinvenção de ideais emancipatórios de libertação social, pela celeridade das informações, por novas formas de expressão e aprofundamento democrático, que se inserem as obras do autor. Acentuando esse contexto, os signos narrativos de Thiago Martins de Melo causam estranheza, não apenas por refletirem o paradigma da complexidade, mas por revelarem na pintura elementos cotidianos de sua experiência amazônica – ocultados, desconhecidos, desprezados ou ignorados por aqueles que os olham. A pintura é repleta de libido, rebela-se contra formas uníssonas, explodindo e pulsando a tensão de lutas materiais, culturais, espirituais, políticas e éticas. Misturam-se arquétipos com narrativas visionárias, utópicas e anti-hegemônicas.

A visualidade é violentada por uma amedrontadora selva semiótica de vozes sincréticas. O artista aborda desde temáticas domésticas e psicológicas acerca do amor, da família e da espiritualidade até a realidade do seu cotidiano na Amazônia brasileira…  Nessa realidade, encontram-se como inimigos coronéis (tradicionais figuras oligárquicas brasileiras), preconceitos raciais e culturais, invasões de terra, tratores, industrialização, mineiros e carvoeiros desmatadores. Nota-se um generoso hibridismo cultural que flerta com filosofia, esoterismo, literatura, religiões, psicologia, política e tantas outras formas de saber.

Por necessidade interior, sua auto exposição é visceral. O artista coloca-se como testemunha e personagem de sua batalha pictórica, emprestando o seu corpo e o de sua parceira ao ataque às instituições. Ambos experimentam, com a carnalidade de suas tintas, as dores da violência física e cultural, a opressão do silêncio e da incompreensão, a angústia de trabalhos forçados e a resistência. Por meio de arquétipos e símbolos obscuros – sublimes e subliminares –, Martins de Melo retrata, com teatralidade, a poética do exílio e, com catarse, as lutas pós-coloniais.

Com profundo comprometimento artístico, Martins de Melo encarna os tabus e preconceitos ou recorre a heróis afrocaboclos, camponeses e indígenas para tentar compreender o que o próprio artista chama comoa invenção branca do Brasil,a reinvenção de Pindorama, aesquizobrasiliana oupsicobrasiliana.

Embora situado em um dos estados da Amazônia brasileira, Martins de Melo parece viver em uminter-local, ou seja, em um lugar de fronteiras do real e irreal. Parece existir um aspecto psicogeográfico do trabalho, onde coexistem uma dimensão metafísica e a projeção de um mundo interior, psicológico, revelados pelos signos e arquétipos presentes em suas obras. O signo pictórico é usado para a quebra de tabus e como ferramenta de comunicação com oinvisível, serve como magia, ebó (oferenda) pictórico e materializa os desejos do seu autor.

Thiago Martins de Melo (1981, São Luis do Maranhão) Vive e trabalha entre São Luis do Maranhão e Campinas. Já participou de inúmeras exposições coletivas, entre as mais recentes incluem:Entre-temps… Brusquement, et ensuite, 12e Biennale de Lyon, Lyon (2013);Imagine Brazil, Astrup Fearnley Museet, Oslo;Convite à Viagem – Rumos Artes Visuais, Paço Imperial, Rio de Janeiro (2012);To be with art is all we ask,Astrup Fearnley Museet, Oslo;Alphabet of the Magi, Mendes Wood DM
 no Edificio Copan de Oscar Niemeyer, São Paulo (2012);Dos Percursos e das Poesias, Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Fortaleza (2012).

Márcio Harum

Tinha a sensação de que aquele que cavilava assim nas trevas não era ele, e sim que estava contemplando seu duplo, um duplo forjado de emoção e que tinha sua aparência exata, com a cara rombaidal, braços cruzados e a cartola caída sobre a testa. No entanto, não conseguia perceber de que natureza eram os pensamentos desse duplo tão intimamente ligado a ele e tão distante de sua compreensão. Porque julgava que seu sentimento de existir era, naqueles instantes, mais efetivo do que a existência de seu corpo. [1] 

Thiago Martins de Melo compreende tal técnica como um sistema próprio de símbolos universais de magia e ciência, que ao comunicarem-se entre si, qual uma antinarrativa biográfica apresentada por seu duplo, conforma uma linguagem e a revela a quem possa querer vê-la. Nos faz ponderar sobre o sentido de uma bad trip de virilidade pictórica e reforça certa crise atual de reconhecimento da figura humana na arte.

O artista ao fazer libertar de tabus e preconceitos a sua obra, transforma, quase perto de intenções antidogmáticas ofensivas, os fantasmas projetados no sexo em vigor erótico. Por um instante, enquanto permanecemos diante de sua pintura, paira uma reação do subconsciente que possa se aproximar talvez a vontade de xingamento e agressão.

A avassaladora autoexposição do desejo libidinal transgressor resvalado diretamente na tela por Martins de Melo, em suma instância, é tomada pelo empréstimo do seu corpo e falo à pintura. Através de reconstrução de cenas da vida doméstica em pulsão, postas lado a lado a visages de serpentes de sedução e traição, seres de possessão, cães engatados pela genitália, raízes que mais parecem tripas, signos e ambientes de tortura e poder religioso-seus dípticos em grande dimensão vingam-se por  independência de superfície da imposta dicotomia representada pela menteversus corpo, que não por ingenuidade em sua obra, assume que esta  separação simplesmente deixou de existir.

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Thiago Martins de Melo

Cavalo
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