Currículo

Felipe Cohen

São Paulo, Brasil, 1976
Vive e trabalha em São Paulo

Exposições Individuais Selecionadas

 

2018

Luz Partida, ivorypress, Madri, Espanha

 

2017

Luz Partida, Cavalo, Rio de Janeiro, Brasil
Ocidente, Kubikgallery, Porto, Portugal

 

2016
Ocidente, Galeria Millan, São Paulo, Brasil

 

2013

Lapso, Galeria Millan, São Paulo, Brasil

Poente, Capela do Morumbi, São Paulo, Brasil

 

2010

Solo Projects, Arco, Madri, Espanha

 

2009
Vigília, Galeria Marília Razuk, São Paulo, Brasil
Colagens, Galeria Anita Schwartz, Rio de janeiro, Brasil

 

2008
A gravidade e a graça, Galeria Virgílio, São Paulo, Brasil

 

2006
Ida, Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, Brasil
Duas vontades, Galeria Virgílio, São Paulo, Brasil

 

2004

Galeria Virgílio, São Paulo, Brasil

 

2002
Galeria 10,20 X 3,60, São Paulo, Brasil

 

2001
II Mostra do Programa de Exposições 2001, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil

 

 

Exposições Coletivas Selecionadas

 

2018
#iff2018, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, Brasil
Borderline Relation, Eastwards Prospectus, Bucharest, Romania

 

2017
Past/Future/Present: Contemporary Brazilian Art from the Museum of Modern Art, São
Paulo, Phoenix Art Museum, Phoenix, Arizona, USA
Troposphere, Beijing Minsheng Art Museum, Beijing, China
Ready Made in Brasil, curadoria de Daniel Rangel, Centro Cultural Fiesp, São Paulo, Brasil
Respirar sem oxigênio, curadoria Regina Parra, Galeria Millan, São Paulo, Brasil

 

2016

DentroFora, Galeria Sancovsky, São Paulo, Brasil

Geometria Afetiva, SESC Bom Retiro, São Paulo, Brasil

Os Muitos e o Um, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

Exposição Inaugural, Cavalo, Rio de Janeiro, Brasil

 

2015

Deserto-Modelo “as above, so below”, Harold St. Gallery, Londres, Reino Unido

 

2014
On another scale, Galeria Continua, San Gimignano, Italy

Imagine Brazil – Artists Books, Musee d’art contemporain de Lyon, Lyon, France

Quase figura, quase forma, Galeria Estação, São Paulo, SP, Brasil

 

2013

Imagine Brazil – Artists Books, Astrup Fearnley Museet, Oslo, Norway

 

2012

Economy of means, Scottsdale Museum of Contemporary Art, Arizona, EUA

 

2011

Estou aqui, Galeria Marília Razuk, São Paulo

Os primeiros 10 anos, Instituto Tomie Othake, São Paulo, Brasil

Nova escultura brasileira, Caixa Cultural Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Em torno da escultura, Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil

Ensaios de geopoéticas – além fronteiras, 8ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre, Brasil

Colecionador de sonhos, Instituto Figueredo Ferraz, Ribeirão Preto, Brasil

Porque sim, Galeria Millan, São Paulo

 

2010

Realidades, Sesc Pinheiros, São Paulo, Brasil

Sempre à vista (Miragem), Galeria Mendes Wood, São Paulo, Brasil

Feijão com arroz, Museo Municipal, Guayaquil, Ecuator; Trendy, Miami, USA

Kierkegaards walk, Galeria Marília Razuk, São Paulo, Brasil

Dimensões variáveis, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil

Do pensamento à representação, Galeria Marília Razuk, São Paulo, Brasil

 

2009

Paisagem incompleta, Centro Cultural Usiminas, Ipatinha, MG, Brasil

Obsolêscencias, Programa Rumos Artes Visuais 2008/2009, Itaú Cultural, São Paulo, Brasil; Curitiba, Brasil

Nouvelles de São Paulo, L’École Nationale Supérieure de Beaux-Arts de Paris, Paris, France

Desenhar lugares, Galeria Marília Razuk, São Paulo, Brasil

6ª Exposição de Verão, Silvia Cintra Galeria de Arte, Rio de Janeiro, Brasil

 

2008

Arquivo Geral, Centro Cultural da Justiça Eleitoral, Rio de Janeiro, Brasil

Ar livre – paisagens audiovisuais, Parque Ecológico, Campinas, Brasil

Atos visuais, Funarte, Brasília, Brasil

Trajetórias em processo, Galeria Anita Shuartz, Rio de Janeiro, Brasil

 

2007

14º Salão de Arte da Bahia, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, Brasil

 

2006

Fiat Mostra Brasil, São Paulo, Brasil

Mostra Ribeirão Preto 150 anos, MARP – Museu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil

Parcial, Galeria Virgílio, São Paulo, Brasil

10ª Bienal Nacional de Santos, Santos, SP, Brasil

 

2004

Outro lugar, Galeria Virgílio, São Paulo, Brasil

 

2003

Young brazilian artists, Galeria André Viana, Porto, Portugal

6º Prêmio Revelação de Artes Plásticas de Americana, Americana, SP, Brasil

Programa/Exposições 2003, MARP- Museu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil

 

2002

Feira, Galeria Virgílio, São Paulo, Brasil

Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Pancetti, Campinas, SP, Brasil

Edital Revelação 2002, Campinas, SP, Brasil

34º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, Piracicaba, SP, Brasil

Coletiva de abertura, Espaço Virgilio, São Paulo, Brasil

Genius loci – o espírito do lugar, Galeria 10,20 x 3,60, São Paulo, Brasil

 

2001

26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo, Ribeirão Preto, SP, Brasil

Exposição coletiva dos artistas selecionados para o programa de exposições, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil

 

Coleções Públicas

 

Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, Brasil

Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil

Museu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil

Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, RJ

 

Prêmios

 

2009

Prêmio Banco Espirito Santo, SP-Arte, São Paulo, Brasil

2007

Atos Visuais – Funarte, Brasília, Brasil

2006

Fiat Mostra Brasil, São Paulo, Brasil

2001

Prêmio Aquisição CPFL – 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo, Ribeirão Preto, Brasil

 

 

Textos

Felipe Cohen

Luz Tardia

Wagner Malta Tavares
Nov/2016

 

porque na tensão da pergunta a alma é levada à graça da sua verdade, que a mando do conhecimento, a mando da pergunta, a mando da configuração, distendida entre a certeza do saber e a capacidade do conhecimento procura a realidade…
Hermann Broch

 

Sempre ouvi e li, e pensei justamente por ter ouvido e lido, que a única coisa que há é o presente, que o passado, por ser passado, houve; e o futuro, por estar por vir, não há. Mas algo acontece quando decido pensar: “PRESENTE”, comecei no passado já projetado o futuro enquanto o momento vai me escapando como líquido. Tão inapreensível quanto passado e futuro, o presente não se apreende nem como ideia que se sente, parece ser o território mais próximo do fim de cada um, já que é sempre no presente que se morre. É como uma bolha de ar numa mangueira esticada e levemente inclinada que não para nunca de seguir seu percurso até chegar ao fim da trilha e ser devolvida para o seu lugar de origem. E me faz pensar que o presente é movimento, é apenas um instante e, como tal, como detê-lo? Finitos e breves, ancorados no passado e com a isca lá na frente lançada, ficamos nesse lugar de onde se veio, se passa e se vai.

 

Pensando nessa presentificação das três instâncias do tempo, vejo uma espécie de luz tardia emanando das Paisagens que Felipe Cohen fez ao longo de 2016. Um momento diante delas, e alguma luz do passado se nos apresenta, uma sensação de familiaridade – sem falar da herança evidente de artistas da tradição recente brasileira como Volpi, Barsotti, Willys de Castro e Oiticica –, uma familiaridade de tempo vivido, uma sensação de algum modo comum a todos. Quanto dessa luz parece ser um eco que vem lá de trás e se projeta para o futuro? Uma luz cálida, a mesma que escapava de mim nos fins de tarde da minha infância e que nos últimos tempos tem voltado ao quintal de casa: aquela luz que quer permanecer e que bate e rebate entre as paredes, vidraças e folhas mais claras de árvores, a mesma que ricocheteia entre os cortes dos triângulos dessas paisagens, cria eixos e planos improváveis, se agarra aos nossos olhos e ao nosso espírito e, mesmo ausente, deixa marcas e saudades. A luz, toda entrecortada pelos módulos de madeira, dá mais à experiência sensível: fragmenta, esquadrinha e constrói, como parte da tradição de Paris do século XIX que ainda reverbera e provavelmente continuará reverberando por muito tempo.

 

Inacreditável fenômeno natural, mágico, prosaico, que a todos fascina, que de saída tem a velocidade que sempre terá, que não acelera nem desacelera, a luz, que atualiza o olhar, atualiza a obra e não tem tempo, está nessas paisagens, mas aqui com uma luminescência tardia – fenômeno impossível em termos da física e que a arte nos possibilita na obra de Felipe –, devolve o tempo do passado para o presente e flerta com alguma possível iluminação de um futuro que parece, no mínimo, e para ser otimista, melancólico.

 

O mesmo tempo deslocado está nos furinhos provocados pelos confetes que afundam no piso, que mantêm sua cor apesar de parecer terem erodido o chão com o peso de sua existência fugaz. Pode ser também uma prospectação da luz futura que um dia atingirá aquela camada da pedra e imprimirá o que ainda está por vir. Mais uma vez as instâncias do tempo perdem suas margens e apresentam-se simultaneamente. Mas é apenas um instante, como detê-lo?

 

O Ocidente – lugar do sol poente, lugar da morte para os povos antigos, dos monstros para os europeus pré-descobrimento do novo continente, ponto limite onde tudo termina e prenuncia outro começo, linha por onde passa o carro do sol e onde se desenvolveu grande parte da tradição da arte que interessa a Felipe Cohen – é o título da mostra. Esse lugar escatológico, final, extremo, é por excelência o lugar da solidão e do silêncio, o silêncio do disco de feltro que prolonga sua luz na superfície do vidro a refletir e completar-se em um possível alvorecer no outro lado do horizonte. Sintético como um poema, como sentia Elliot na sucessão das esferas, na opacidade de cada camada e na dificuldade de algum vislumbre da transparência de cada coisa. Fenômeno que ocorre no relevo Lago, em que a sintaxe clara e generosa tem o mistério das coisas simples, não deixa dúvidas nem pensamentos esquivos, mas guarda seus segredos nos materiais que conservam suas características e revelam em sua relação.

 

Gosto de exposições que ambicionam o olhar de um homem, na medida em que isso é possível, já que a natureza humana precisa de exemplos para ser algo próximo de individual. Inclusive por isso, creio, o artista trabalhe na atualização da tradição – já que há que se olhar para um lugar para se reconhecer, a escolha foi precisa naquilo que para ele seria exemplar.

Confuso e emocionante, o lusco-fusco do cair da tarde, aquela luz que desaparecia
(e se dissolvia na matéria escura da noite. Quando criança, brincando na rua.)

 

Do Modernismo brasileiro à pintura italiana

Alberto Rocha Barros
Nov/Dez 2016

 

A arte contemporânea vive um momento singular de sua trajetória? Duas tendências sugerem que sim. Primeiro, o rompimento com o passado, sobretudo com os mestres canônicos da tradição, fez com que a arte clássica, medieval ou renascentista, deixasse de ser referência ou inspiração aos artistas. Além disso, a busca pelo “belo” não é mais o elemento norteador para muitos artistas visuais: mais urgentes são batalhas conceituais, pautas sócio-políticas ou o estímulo de efeitos específicos no espectador. Nelas mesmas, essas tendências não merecem aplauso ou repúdio, pois assim como nunca teríamos aprendido apreciar formas artísticas variadas sem as vanguardas, é inegável que o coro “abaixo o cânone!”, quando em uníssono, é empobrecedor.

 

Alguns pintores paulistas contemporâneos têm navegado bem as turbulentas águas em que inovação e tradição se encontram. Dentre eles, figura Felipe Cohen, cuja exposição, “Ocidente”, está  em cartaz na Galeria Millan até o dia 20 de dezembro de 2016.

 

Preciso alertar o leitor que sou amigo íntimo de Felipe Cohen, acompanhando seu trabalho há anos, o que delimita meu texto a um ensaio de associações e impressões pessoais sem maiores juízos críticos. O que vou propor aqui é um “passeio” dividido em três partes pela exposição de Cohen, assinalando três temas que considero caros a seus esforços:  o vínculo com a tradição canônica, a dívida de todo artista com o Belo e o legado do modernismo brasileiro. A exposição “Ocidente” corporifica algumas de suas tentativas de pensar esses problemas artisticamente.

 

A Tradição do Cânone

 

Em 1948, o pintor americano Willem de Kooning deu uma aula inaugural no Black Mountain College que tinha por tema “Cézanne e as cores de Veronese”. A reação da plateia é descrita no magistral De Kooning: An American Master (Stevens e Swan): os espectadores, tomados por um espírito de “abaixo os museus!”, como descreve uma das testemunhas, ficaram perplexos. As coisas só pioraram quando de Kooning organizou um curso inteiro em torno da recriação de uma única e solitária natureza morta de composição detalhista e clássica. Ele estava, é claro, insistindo tanto na importância do domínio da técnica quanto na importância da história da arte. Graças aos caprichos do acaso, as cores de Veronese foram reativadas por Cézanne e revividas por de Kooning. Do século XVI ao século XX, de Veneza ao Novo Mundo. Valeria a pena desdenhar de tal linhagem?

 

A primeira peça que vemos na exposição de Felipe Cohen (todas pinturas em madeira) é “Sem Título (série Luz Partida #16)”, 2016.

 

O quadro sublinha, visualmente, o título da exposição. Cohen associa “Ocidente” a duas ideias: poente e morte. E é sobre a morte que trata esse quadro, tendo por inspiração a sepultura aberta que aparece em várias pinturas a respeito da ressureição de Cristo durante o período medieval e renascentista, como nesta de Fra Angélico, utilizada por Cohen como modelo: (“A Ressurreição de Cristo e as Mulheres na Tumba”, 1440-41).

 

Cohen preserva e até aprofunda a ilusão de “vazio” do túmulo, mas drena o quadro de suas cores e personagens, criando uma atmosfera modernizante que remete àquelas paisagens ermas e severamente geométricas de outro pintor italiano, Giorgio de Chirico. Ou às composições estilizadas de Giorgio Morandi. É um quadro extremamente minimalista, o que convida o expectador à reflexão.

 

Tendo a morte por tema, a opção não é descabida e, ao reduzir o Fra Angélico ao essencial – o túmulo vazio do Cristo renascido –, Cohen alude também a uma de suas obsessões visuais: o interesse recorrente pelos “fundos de quadro”, algo muito presente em toda a exposição, e que acaba por dominar essa tela. Afinal, não sobra nela outra coisa a não ser túmulo e fundo.

 

“Ocidente” para Cohen também remete a pôr-do-sol, e a sepultura que vemos em suas pinturas é inspirada na tópica da ressureição. O sol mergulha no horizonte para renascer; Cristo morre para reviver. Logo, trata-se de uma morte impregnada da esperança de um retorno glorioso. A hora mais escura da densa noite é vencida pelos magníficos raios púrpuros e rosáceos da aurora. Se a cor foi tragada do quadro e nada de humano está presente, é porque esses elementos precisam ser completados pelo expectador, num gesto de transcendência – uma palavra que se aplica aqui em função de outra característica formal da peça de Cohen. Ela é composta por triângulos colados sobre uma superfície, preservando o tom natural da madeira: ela tremula e cintila com a incidência da luz natural (solar), recriando de maneira análoga, embora mais contida, os efeitos reflexivos das folhas-de-ouro usadas nos fundos de certas pinturas medievais e que representavam a natureza mística e transcendente de Cristo.

 

Acredito que a relação tênue entre representação e abstração seja uma das características visuais no cerne dos trabalhos de Cohen: tudo sempre está em um esforço por configurar a imagem nítida de algo do plano do real, mas logo desmancha-se em jogos lineares e geométricos. Podemos ver isso nitidamente em um trabalho que aprecio como o par natural da sepultura. Agora “Ocidente” não remete mais ao par “morte/ressureição”, mas à díade “poente/aurora”. Trata-se da escultura intitulada “Ocaso”.

 

O que vemos é um sol se pondo no mar. Há um reflexo na água, criado por um jogo natural de luz e sombra. Novamente, as cores e tonalidades são brandas e contidas, e o espaço narrativo é límpido e abstrato. Não é um sol fulgurante e reluzente, mas uma criação geométrica.

 

As duas peças que considero mais representativas do título e do tema da exposição estão ambas ancoradas numa tradição imagético-metafísica longeva. Sobrevive no nosso meio artístico paulista, não apenas em Felipe Cohen, como também em muitos outros, uma forma de criar artisticamente onde a arte presente tem como interlocutor primeiro e principal, a arte do passado.

 

A Questão do Belo

 

Em 1993 foi publicado em Los Angeles uma singela coleção de ensaios do crítico Dave Hickey: O Dragão Invisível: quatro ensaios sobre o Belo. Dave Hickey é uma figura curiosa: formado numa tradição marxista e pós-moderna, é um defensor ferrenho da tradição da alta pintura, do mercado da arte e da democracia norte-americana. Seu argumento acerca do problema do “belo” é simples: desapareceu do horizonte de muitos artistas que pretendem produzir “arte séria” o gosto por deleitar o expectador, agradar o cliente. Mas no mercado de arte, concebido amplamente, ainda subsiste essa dinâmica complexa e antiga entre mecenas e artista. Dave Hickey insistia: o belo é algo quase impossível de captar, quiçá inexistente (daí a imagem do “dragão invisível” do título), mas a busca por ele permanece um dos grandes esforços humanos e, segundo Hickey, um dos grandes prazeres democráticos da vida. Um movimento por vezes chamado de “retorno do belo” ou “sinceridade nova” (new sinceritism) nasceu entre críticos que escreveram sobre esse tema, motivados pela publicação de Hickey: Wendy Steiner, Elaine Scarry, Arthur C. Danto, Alexander Nehamas. Sem intenções dogmáticas, o movimento queria reviver o valor da composição harmônica e formal, dos gostos (equivocados ou não; como julgar?) do público geral, da apreciação desinteressada do belo.

 

Até agora, vimos Felipe Cohen trabalhando com ideias muito pessoais e de acento metafísico. Os objetos eram arranjados de maneira rigorosa e com cores drenadas e contidas. No resto da exposição, as coisas mudam um pouco. A estrutura essencial das composições permanece a mesma, seguindo regras geométricas precisas; mas agora aparece junto a elas um deleite puro por cores e paisagens. A referencia renascentista permanece. Ele empresta das paisagens renascentistas três elementos: um gosto por ambientes geometrizados, de atmosfera quase surreal ou fantástica; um interesse pelo contraste entre montanhas, céu e mar; uma combinação de tons rosáceos, azulados e amarronzados.

 

É claro que Felipe Cohen submete essas concepções artísticas a uma reformulação quase completa. Por vezes é difícil enxergar o esforço de continuidade. Mas esse registro de imagens é exatamente o que Cohen está querendo emular numa linguagem pictórica inteiramente outra. Vejamos então uma das recriações de Cohen, numa série chamada Luz Partida: [“Sem Título (série Luz Partida #18)”, 2016].

 

A violência da tradução de uma linguagem para a outra é evidente. Dificilmente identificaríamos a fonte de inspiração. Mas talvez isso seja próprio da tradução artística. É bem conhecida as dificuldades de verter um poema de sua língua original para qualquer outra. As transformações e transposições necessárias são altamente agressivas. Mas, quando bem sucedidas, um substrato e um conjunto de temas e ideias permanece. Em sua releitura das paisagens italianas dos séculos XV e XVI, Cohen preserva um conjunto mínimo de pontes de apoio. Haroldo de Campos falava em “transcriar” poemas chineses antigos, textos bíblicos e épicos gregos para o português: preservar indícios cruciais do original, mas fazer o texto renascer como se fora uma produção da língua portuguesa. Vejo os esforços de Cohen caminhando num sentido semelhante.

 

A tela acima perde um pouco de sua vivacidade na reprodução fotográfica. Ela depende da e demanda a incidência de luz e o movimento do expectador. Caminhando ao redor dela, aproximando-nos ou distanciando, a luz ativa a tela: a geometria dura dos triângulos amolece, movimentos sutis tornam-se perceptíveis. Um feixe de sol, representado pelo triângulo “amarelado” no alto à esquerda incide sobre as montanhas e a água. Uma das faces de uma das montanhas banha-se em rosa. Uma ilusão de profundidade começa a transparecer. Notamos a sombra na qual a face do monte mais próximo de nós ainda está envolvido. As águas fluem e tremulam. Essa tentativa de vencer o próprio pendor pelo imperativo do sistema geométrico e presentear o espectador leigo com uma paisagem apaziguante nada mais é do que uma humilde tentativa de satisfazer nossos anseios pelo belo.

 

Legado do Modernismo Brasileiro

 

Mencionei o imperativo do sistema geométrico ao qual estão submetidas todas as obras da exposição “Ocidente”. Isso decorre da dívida de Cohen com sua educação no modernismo brasileiro. E o modernismo nacional é, para nós, o que a arte clássica foi para a tradição artística europeia. É o nosso ponto de partida e paradigma identitário.

 

Mesmo não sendo um especialista na tradição de nosso modernismo, sei que posso afirmar, sem causar espécie,  que a heterogeneidade marca o movimento. Tendo a pensar parte do modernismo como decorrência de um problema artístico mais amplo: como inserir ordem dentro de um mundo que foi presenteado com a liberdade promovida pela revolução da abstração?

 

Uma exposição memorável de 2012/2013 do MoMA de Nova York teve como tema “A Invenção da Abstração”, 1910-1925. A exposição apresentava o advento da arte abstrata como a revolução artística mais importante desde o renascimento italiano. Estamos acostumados hoje a olhar para a pintura abstrata. E acho que ficamos anestesiados diante do espanto e da maravilha que é a abstração. Tomamos por banal os “retratos do nada”, na feliz expressão de Kirk Varnedoe. Certas correntes do modernismo, assim me parece, buscaram conter e domesticar esse admirável mundo novo mediante sistema de regras e estratégias de “tema e variações”. Mesmo entre os modernistas figurativos, há que se lidar com o peso do abstracionismo.

 

Cohen está claramente criando para si um sistema semelhante de regras, uma gramática por assim dizer. A partir de um conjunto restritíssimo de elementos – triângulos do mesmo tamanho e dimensão; um conjunto reduzido de cores – ele tenta engendrar um certo número de criações. Para os meus olhos, o trabalho de Felipe Cohen que mais presta homenagem a esse problema apresentado pela abstração é o seguinte: [“Sem Título (série Luz Partida #12)”, 2016].

 

Tenho dificuldade de enxergar uma paisagem aqui, mas vejo uma tentativa de casar abstração minimalista com uma dinâmica viva de cores e formas. Um esforço paralelo aparece nos “espaços celestes” (skyspaces) de James Turrell.

 

Turrell está também buscando, a uma só vez, seguir um sistema de regras e trazer a vida e o imponderável a esse sistema. No geral, Turrell trabalha com estruturas arquitetônicas modernistas, banhada por luzes artificiais. Uma de suas obras primas foi criada para o antigo Whitney Museum, ao lado do Guggenheim, uma das mecas do modernismo de Nova York. Já nos “quartos celestes” ele introduz um elemento novo: temos espaços geométricos frios e vazios (não há moveis e apenas um número limitado de pessoas costumam poder entrar por vez), mas a incidência de  luz é determinada por uma “janela” aberta. Uma variação simples como essa abre caminho para rusgas e rupturas do sistema: nuvens passageiras mancham e ameaçam a beleza do azul profundo de um “céu de brigadeiro”. Essa é uma maneira de “humanizar” a pureza do sistema.

 

Acredito que quando Cohen expõe os andaimes de seu sistema, como na pintura da série “Luz Partida” acima, trazendo o rigor da sua lógica geométrica para o primeiro plano, ele esteja revelando um duro problema que foi um dos fantasmas que rondou o modernismo.

 

Eu disse que vejo na obra de Felipe Cohen uma reverência à tradição da história da arte e um esforço para deleitar o espectador, mas disse também que seu trabalho vive numa eterna tensão entre representação e abstração. Acredito que essa tensão perene seja sua herança modernista, que, em certo sentido, sai triunfante da exposição.

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Felipe Cohen

Cavalo
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